Em Portugal, cerca de 500.000 pessoas maiores de 65 anos sofrem de solidão. É uma realidade muito presente e que, de certa forma, a todos apela e interroga, uma vez que se liga a condições tão humanas como a vulnerabilidade, a fragilidade e perdas nas relações. Ainda assim, é vivida muitas vezes em silêncio pelo sentimento de culpa e vergonha que causa nas pessoas que dela sofrem. É por isso que passa despercebida diante dos olhos de vizinhos, familiares e da sociedade em geral.

Uma realidade invisível

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É difícil termos consciência desta realidade. A solidão é um sentimento com o qual convivemos de perto, mas que muitas vezes passa completamente despercebida. Esconde-se dentro das casas, mas também na rua, no nosso bairro, ao nosso lado.

Todos nós já vivemos o sentimento de solidão em alguma altura das nossas vidas, mas há certas situações que fazem com que a solidão se intensifique. Durante a velhice, o número de relações pessoais pode diminuir devido a perdas nas relações e transições de vida (reforma, viuvez, etc.), ao mesmo tempo que nos podemos sentir mais frágeis física e emocionalmente. Estas condições constituem fatores de risco para o aparecimento de um sentimento de solidão que, às vezes, pode ser difícil de gerir.

Tristeza, depressão, apatia ou falta de esperança... Às vezes é difícil ter consciência de que estes sentimentos que nos invadem podem ser a origem, mas também a causa, da solidão. Existem diversos tipos de solidão: solidão física, emocional, social. É, por isso, difícil reconhecê-la, pois muitas vezes associamos a solidão apenas ao isolamento físico. Tomar consciência do sentimento de solidão é o primeiro passo para buscar e encontrar os recursos necessários para recuperar o nosso bem-estar.

Importa também referir que um fator de proteção contra a solidão consiste na existência de redes de apoio e de ajuda, pois promovem a interdependência e a relação com outras pessoas. Assim, a solidão não tem apenas uma componente individual, tem também a vertente social e a responsabilidade da sociedade, contribuindo para a criação de comunidades mais solidárias e comprometidas.

Olá, uma palavra que muda tudo

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Todos podemos fazer muito para ajudar outras pessoas a deixar de sofrer de solidão. Prestar atenção ao que nos rodeia, falar com os vizinhos que encontramos todos os dias, observar aqueles sinais que muitas vezes passam despercebidos, mas que demonstram que a pessoa próxima de nós sofre de solidão. Perceber a solidão perto de nós, e também em nós mesmos, é o primeiro passo para que a solidão deixe de ser invisível.

O segundo passo é tão simples como dirigirmo-nos a essa pessoa, interessarmo-nos por ela, estabelecer contacto. Uma palavra tão simples como “olá” pode mudar o dia a dia dos idosos que sentem solidão. Diante do desafio da solidão, não podemos esquecer que o ser humano é social por natureza e que viver em comunidade também implica cuidar uns dos outros.

A Fundação ”la Caixa”, com os seniores

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Na Fundação ”la Caixa” trabalhamos para melhorar a qualidade de vida dos seniores, conectando-os com o seu ambiente, acompanhando-os na procura de uma vida plena e com propósito e reconhecendo-os como uma parte valiosa da sociedade, com muito para contribuir. O compromisso da Fundação ”la Caixa” com os seniores tem uma tradição de mais de 110 anos e continua hoje, mais vivo do que nunca.

Além do apoio pessoal nesta nova etapa, a Fundação ”la Caixa” promove nas cidades de Lisboa e Porto o programa Sempre Acompanhado. Trabalhamos na prevenção e acompanhamento de situações de solidão em pessoas com mais de 65 anos, capacitando-as, facilitando a criação de relações de confiança, compromisso e colaboração com o seu ambiente, oferecendo apoio na procura de recursos para gerir todo o processo de vida diária.

A campanha “A solidão não se vê, sente-se

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Este ano, a Fundação ”la Caixa” lançou a campanha de sensibilização “A solidão não se vê, sente-se”, com o objetivo de tornar visível uma realidade escondida que afeta milhões de seniores. A campanha procura fazer com que a sociedade compreenda como uma pessoa senior que se sente sozinha, revelando visual e auditivamente a sensação subjetiva que a solidão representa.

Sobre a solidão, por Javier Yanguas

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O Centro de Investigação da Comissão Europeia (Centro Comum de Investigação) realizou recentemente um inquérito sobre a solidão indesejada com base numa amostra de mais de 25.000 pessoas com mais de 16 anos, em todos os países membros da União Europeia: mais de um terço das pessoas entrevistadas relataram sentir-se sozinhas às vezes, e 13 % sentiam sozinhas na maior parte do tempo.

Somos seres sociais, precisamos de nos relacionar com os outros, temos uma motivação essencial para criar e manter relacionamentos interpessoais. O poeta inglês John Donne (1572-1631) disse: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

A experiência da solidão está profundamente enraizada no carácter social do ser humano, sendo os laços com outras pessoas uma necessidade básica e uma parte essencial da nossa identidade. Se olharmos para a psicologia, muitos modelos conceituais enfatizam que vivemos ligados a outras pessoas e atribuem ao vínculo emocional um papel central tanto no desenvolvimento de uma personalidade saudável como na manutenção do bem-estar psicológico.

Quando estes laços emocionais centrais são alterados – devido à morte dos nossos entes queridos, por exemplo – vivenciamos os momentos de maior dor, solidão, vulnerabilidade psicológica e física das nossas vidas. Perdas emocionais, luto e solidão são, portanto, conceitos muito interligados.

A solidão nasce, assim, da nossa própria vulnerabilidade ontológica, da nossa profunda necessidade dos outros, e também está relacionada e sobreposta com outras experiências como o isolamento, a depressão, o desespero, a falta de propósito, o sentimento de falta de controle, a experiência do vazio, etc.

O que acontece – tal como acontece com diferentes emoções e sentimentos, bem como com perdas e transições – é que a solidão está ligada à nossa saúde e, portanto, (solidão) é também um problema de saúde pública. Existe vasta literatura científica sobre a relação entre solidão e a saúde. Portanto, a solidão também é um problema de saúde pública num duplo sentido: a solidão causa doenças e as doenças, que nos tornam vulneráveis, causam solidão.

A solidão também está associada à falta de compromisso, a um menor nível de confiança nos relacionamentos, a comportamentos de risco e à falta de integração comunitária. Por tudo isto, porque a solidão afeta pessoas de todas as idades, géneros e estilos de vida – neste sentido é muito inclusiva, porque não discrimina ninguém – já não é preciso perguntar-se “por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Javier Yanguas, gerontólogo e doutor em Psicologia pela Universidade Autónoma de Madrid, e diretor científico do Programa Seniores da Fundação ”la Caixa”.